Da série "fragmentos que só são engraçados isolados".
"Queria ser mais útil. Talvez o violino do Andrew Bird." Pensei.
Comecei a rir sozinha "Meu Deus, e olha que eu nem pensei em possíveis trocadilhos com 'passar a vara'!"
Comecei a gargalhar.
Os remédios se foram e o ciclo louco recomeça. Garoto bêbado demais pra falar. Garota deprimida demais pra se importar. Está frio demais pra voltar ao quarto pegar o cobertor. Está frio demais pra ficar. Frio demais e eu perdi meus óculos. E eu precisava ouvir certa música. Certas.
Não precisava saber de todas as histórias, sabe. Eu ri blasé e agora tenho certeza de que a hora do despejo vem voando. Rir da desgraça. Do monstro coitado se arrastando contando do mal que ele costuma fazer e fará de novo e de novo e de novo. Mal evitável mas tão irresistivelmente enganador.
Vou comemorar com tortura. Vou comemorar.
Um viva, Mariana! Um viva aos seus erros, seus crimes, seus enganos, tudo isso. Ladrão que rouba ladrão, tanto faz, monstro que fere monstro tá curado por milênios!
Monstro que fere monstro de morte viverá santo pra sempre!
Estar sozinha em Curitiba de certa forma me traz certa paz. Sair do quarto que agora faz meu nariz escorrer o tempo todo - ah, carpete! - e confundir minha forma fantasmagórica e mal vestida às cores velhas da rua salva minha garganta da angústia que arde, mais que todo ácido gástrico. Vejo as meninas bonitas em suas bicicletas brilhantes, o carro tocando pagode, as lixeiras cinzentas pixadas no laranja dos meus chinelos, a grama, a grama, a grama. Sento na calçada - oh costume alentador - como um buda feio e distorcido, assusto o senhor de mochila com meu olhar vidrado e vazio.
Ali do outro lado da rua tem um salão de beleza que talvez não cobre os olhos da minha cara pra tosar esse meu cabelo maltratado, pois é coberto de cartazes da Avon e isso de certa forma pode signficar que não é um lugar tão metido à besta como a maior parte de tudo em todo lugar do mundo. Do lado, uma banca apertada que vende doces que eu não vou comprar e cigarros de boa marca - oh, Vila Alemã, com seus botecos que só vendem solas de sapato intragáveis! - e a lan house onde eu tenho meia hora pra cuspir meu conforto nesse caderno que alguns chatos insistem em folhear como na música "Suedehead" ("why do you come here, when you know it makes things hard for me?" [sic?])
Já perdi meu jeito de falar, minha identidade, minha vaidade e minha fome. Me conforta ver os alunos da federal, tão mal vestidos quanto eu, devem lavar as próprias roupas - quando você sabe o quanto é difícil guarda as melhores peças pros dias de encontrar os amigos, não sei se você sabe.
Pensei em estar agora na reitoria ouvindo as rodas de samba, mas tenho vergonha de olhar pro moço grandão de rastafári, porque eu comentei o quanto amava malabares e podia comprar um conjunto dele, mas eu não posso, sei lá, mal tenho grana pro básico, acho, na verdade tenho medo de contar e tomar um susto, imagine, sei lá, descobrir que não tenho grana pra voltar pra casa dia 14. Andei me dando a uns luxos, tipo descolar um jantar sem gosto no mercado pra comer no estacionamento com um amigo, acho agora um erro.
Tá, vou calar a boca porque só tenho mais uns cinquenta centavos de crédito.
(Post especial com Hugo em dose dupla.)
"Gata, você parece uma pintura."
"Dependendo da pintura isso não é um elogio. E se eu for um Picasso?"
"Foi mal aí mas Picasso sou eu, gata."
"O mundo é um lugar mais feliz quando você dá pra mim, gata."
"Mas eu não..."
"Por isso o mundo é um lugar tão triste."
Beijei minhas cicatrizes e amei minha dor.
Me amei como nunca antes. Vi que podia como era, feia, pobre e auto-destrutiva, eu poderia ser uma música.
Talvez Carol de Morrissey. Ou uma garota que achava que todos os dias eram como domingo.
Foi meu momento de epifania, naquela lavanderia apertada, vendo a pilha de livros velhos, as orquídeas imortais, arrumando as alças da blusa velha verde-limão.
When last I spoke to Carol I said: "I can't pretend it gets easier..."
She said: "I've hung on, I have edged around this narrow ledge since the day I was born in nineteen-seventy-five."
(La, la la la...)
When last I spoke to Carol I said: "I can't pretend I feel love for you."
She said: "I've hammered a smile across this pasty face of mine since the day I was born in nineteen-seventy-five..."
La, la la la, etc.
Eu gosto de café. Espresso curto sem açúcar. Quando os dias são cinza e chove muito, quando eu quero brincar de me matar lentamente, quando eu tenho livros grandes de linguagem rude ou poesias doloridas, principalmente. Mas não necessariamente.
Mas eu não disse que gosto de café, mas eu agi como se ainda fosse uma pequenina Alice, mas eu falei tão alto num lugar tão sóbrio porque eu estava com medo do céu cinza que não era familiar e das pessoas interessantes. E eu desisti de tanta coisa além de falar e eu só me expressei de maneiras tão impróprias porque eu não podia falar e tudo isso era meu único laço com minhas primeiras cores tímidas.
Eu passei fome e sede pra parecer menor e eu não sei o que eu queria. Na maior parte do tempo eu queria chorar pelas palavras não ditas e pela solidão que rasgava minha garganta.
Preciso sufocar esses meus pensamentos, abrir meus olhos, envelhecer tantos anos, falar tão baixo, ficar tão sozinha. Punir a criança assustada que mora na minha cabeça, até que ela fuja ou morra.
Aí depois eu comento o que sobra. Talvez o céu nublado, talvez o café amargo, talvez o vento.
Uma série: pedaços de conversa que só são engraçados isolados.
"Ele é o genro que eu pedi a Deus."
"Mãe, você dizia a mesma coisa do Ricky Martin."
M.: "Natália. O que eu acabei de fazer?"
Natália: "O quê?"
M.: "Eu comprei um batom."
Natália: "Não se arrependa, era O Batom."
M.: "Não é isso."
Natália: "Que foi, então?"
M.: "Eu comprei um batom. Eu escolhi o batom eu comprei o batom eu paguei o batom."
Natália: "E...?"
M.: "Me sinto tão mulher agora que é esquisito."
o que tinha acontecido? ._. read more
on O gato, a cama.